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O AVESSO DA PELE: ENTREVISTA

Atualizado: 8 de abr.

“Num Estado racista, a grande obra do homem negro é se manter vivo

PINTURA DO ARTISTA ANTONIO OBÁ ESTAMPA A CAPA DE ‘O AVESSO DA PELE’

Vencedor do Prêmio Jabuti 2021, o livro “O Avesso da Pele” (Cia das Letras), de Jeferson Tenório, foi censurado no Rio Grande do Sul por utilizar palavras de baixo calão. A obra está entre os 10 livros mais vendidos da Amazon.

Uma diretora de escola da cidade gaúcha de Santa Cruz do Sul gravou um vídeo lendo trechos do livro numa clara demonstração de racismo e ignorância bolsonarista que circulou nas redes e acabou sofrendo censura.

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A seguir, reproduzimos texto publicado no Instagram da historiadora Lilia Schwarcz:


“Como se não bastasse o ato de censura no Rio Grande do Sul, hoje, dia 5 de março, o livro de Jeferson Tenório, “O avesso da pele”, sofreu novo ato de violência; agora vindo do Núcleo Regional Curitiba.A Secretaria de Estado da Educação do Paraná, solicitou recolhimento da obra, cito, “para a “produção de orientação e encaminhamentos pedagógicos a partir do livro”. Como assim?Novamente, é de se estranhar a decisão, já que o livro foi previamente inscrito e avaliado pelo Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD 2021) para ser adotado no Ensino Médio.
Vale destacar a seriedade desse programa que conta com uma banca formada por mestres e doutores especialistas em literatura e língua portuguesa. Mas o processo de escolha não termina aí. Depois desta etapa, o mesmo título foi escolhido pelas equipe gestora das unidades escolares para só então chegar aos colégios.Tudo acompanhado de material de apoio para educadores e alunos.Assim, deixar-se influenciar e pedir o recolhimento dos livros, tudo isso depois de um vídeo sensacionalista que tira trechos do livro de seu contexto original; transformar um romance complexo como esse e que lida com uma questão nodal do país — a questão racial — em um livro pornográfico só pode ser uma cruzada moral e mal-intencionada.Trata-se ademais de um grave entrave à liberdade de pensamento e de expressão. A censura de livros, a tentativa de cercear o acesso a determinados temas, faz parte de um movimento que lembra os governos autoritários e que buscam doutrinar; não educar para a liberdade.Vencedor do Jabuti de 2021, “Avesso da Pele” trata das relações familiares, da importância do ensino de literatura, do ambiente escolar e seus desafios, do cinema e da música, e da questão racial no país. Trata-se assim de uma obra que traz muito vocabulário e experiência para estudantes de Ensino Médio, que neste momento da vida constroem suas próprias identidades, refletem sobre seu país e sonham com a boa literatura. .Erram as duas secretarias de estado da educação, mas quem sai perdendo somos nós. Não à censura de livros”.

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Abaixo, reproduzimos parte da entrevista do autor da obra ao NEXO JORNAL

‘O avesso da pele’, romance de Jeferson Tenório, restitui identidade e afetos de personagem assassinado pela polícia.
A reconstrução dos afetos e da memória do pai, morto em uma abordagem policial, é a tarefa assumida por Pedro, narrador de “O avesso da pele”, romance de Jeferson Tenório lançado em agosto pela Companhia das Letras.
Não à toa, a citação que abre o livro é tirada de “Hamlet”, tragédia de William Shakespeare em que o príncipe da Dinamarca recebe a visita do fantasma do pai assassinado e tenta dar sentido ao mundo à sua volta.
Pedro conta a história de seus pais desde a infância, narra como se conheceram e se separaram. Assim, dá substância e humanidade a Henrique, seu “pai fantasma”, professor de literatura na rede pública de Porto Alegre.
O livro lida com a subjetividade dos personagens, marcada pelo racismo, seus relacionamentos amorosos e familiares, com a precariedade do sistema público de ensino e da vida dos mais pobres no Brasil.
“O avesso da pele” é o terceiro romance de Jeferson Tenório, escritor nascido no Rio de Janeiro em 1977 e radicado em Porto Alegre. É também o primeiro publicado por uma editora de grande porte, marcando sua consolidação como uma das grandes vozes da literatura brasileira contemporânea.
Tenório falou ao Nexo sobre os temas explorados no livro, como se encaixa em um projeto literário mais amplo, sobre sua trajetória pessoal e a atual situação da educação no Brasil.
O que o título do livro, ‘O avesso da pele’, representa e como ele surgiu para você?
JEFERSON TENÓRIO O título tem a ver com o meu projeto literário, que começa no primeiro livro, “O beijo na parede”, passa por “Estela sem deus”, até chegar nesse terceiro livro. Ele tem a ver com contar a história de pessoas negras a partir das idades. Então eu começo na infância, passo pela adolescência e chego, com “O avesso da pele”, a esse personagem adulto.
Minha preocupação nesses três livros sempre foi colocar personagens negros, tocar na questão racial, mas que ela servisse como pano de fundo, porque o que me interessa discutir é a subjetividade desses personagens. Nesse último livro, optei por dar esse título porque eu queria que a pele aparecesse no título, mas que ela não fosse a principal, que o principal fosse na verdade o seu avesso, ou seja, as suas subjetividades, as suas contradições, as angústias, é isso que eu me proponho a discutir no livro. Tanto que o capítulo do avesso é o maior de todos, porque é ali que eu vou concentrar a maior reflexão sobre a vida desses personagens.
A descoberta da literatura pelo seu protagonista, Henrique, desencadeia um processo importante na vida dele, e vai fazer com que ele se torne professor da disciplina, assim como você. Como foi para você esse encontro com a literatura?
JEFERSON TENÓRIO Foi parecido com o Henrique, embora tenha algumas diferenças. Foi quando eu entrei na faculdade. Me deparei com um curso de Letras onde os meus colegas sabiam quem era Homero, Shakespeare, Cervantes, e eu não fazia ideia de quem eram esses autores.
Senti uma necessidade muito grande de conhecer esses escritores e comecei a comprar muitos livros, de modo que eu não consegui mais frequentar essa faculdade particular onde eu estava, fiquei endividado.
Foi quando comecei a estudar pra fazer o vestibular na universidade federal [a UFRGS, onde foi o primeiro cotista negro a se formar], e aí eu posso dizer que os livros me ajudaram nesse sentido. Minha entrada na literatura foi essa descoberta de um mundo que eu havia perdido durante a minha adolescência, que ninguém me disse que existia, e só na universidade comecei a me dar conta disso.

Jeferson Tenório – FOTO: CARLOS MACEDO/DIVULGAÇÃO

Quem apresenta a literatura a Henrique é um professor que também desperta nele pela primeira vez a consciência do que é ser negro. Qual a importância dessa figura?
JEFERSON TENÓRIO O personagem Oliveira é baseado na verdade em duas pessoas. Uma foi de fato um professor meu, que se chama Jorge Fróis, e o outro é o Oliveira Silveira, um poeta daqui do Rio Grande do Sul, foi ele quem idealizou o Dia da Consciência Negra.
Eu quis fazer então uma homenagem a essas duas pessoas que de certo modo acabaram me tornando mais consciente, como escritor e também como homem negro. Foi a partir dessas duas figuras que eu consegui compreender que ser negro no Brasil era bem mais grave do que eu imaginava.
Ter professores negros é fundamental para ampliar a visão dos alunos em relação à literatura e até ao próprio entendimento da sociedade, da vida, principalmente aqui no sul, onde a gente não tem muitos professores negros em sala de aula.
Eu dou aula em duas escolas particulares e sou um dos poucos professores negros, aliás, o único professor negro de literatura da escola, e eu percebo que tem algumas coisas que eu não deixo passar pelo fato de ter uma experiência negra.

LEIA ENTREVISTA COMPLETA : CLIQUE NEXO JORNAL




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