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NAZISMO E RACISMO

Enfrentamento¹


Por: Prof Adriano Duarte


Hitler illustration Blitzed Drugs in the Third Reich

Como historiador por formação, só consigo pensar os fenômenos no processo e no contexto – ou seja, no tempo. E penso que antes do enfrentamento daquilo que chamamos neonazismo, precisamos compreender o fenômeno. É sobre isso que apresento algumas hipóteses.

Estudos da antropóloga Adriana Dias que mapearam células neonazistas no Brasil mostraram que em 2019 havia 334 células ativas em todo país. Em 2021, seu número saltou para 530 células; em 2022 novo salto para 1.117 células. O sul do Brasil responde por 2/3 dessas células (744, aproximadamente). E apenas em Santa Catarina havia mais de 300 células mapeadas em 2022. [2]

Seria muito fácil, a partir dessas informações, concluir que vivemos em um estado fascista. Mas as conclusões fáceis em geral são também equivocadas. Penso que a nossa ênfase nos termos nazismo e fascismo muitas vezes dificulta nossa análise e nossa compreensão da extrema-direita contemporânea. Acredito que há uma espécie de inflação no uso desses termos e uma certa preguiça intelectual entre aqueles que não conseguem “ver na atual extrema-direita mais do que a simples repetição de um fenômeno político”[3] de 90 anos atrás. Muito do que foi rotulado como nazifascismo nos anos de 1920/1930 não existe hoje, a saber: 1) estados corporativos totalitários; 2) partidos de massas como o nacional-socialista alemão; 3) grupos paramilitares como os camisas negras italianas ou as tropas de assalto, a SA alemã; 4) rejeição ao liberalismo; 5) o desejo por uma transformação revolucionária. O que eu quero dizer é que quando nos referimos a fascismo ou nazismo como parâmetro para medir as ameaças aos direitos democráticos hoje, acabamos desarmados para enfrentar as ameaças reais e atuais às liberdades democráticas.

A pergunta que precisamos responder é: o que os grupos que se definem como neonazistas querem expressar com a sua adesão a essa ideologia? Para mim está claro que os preconceitos que eles anunciam, sejam de que tipo forem, não são apenas respostas psíquicas, mas principalmente socialmente determinadas. Mais do que isso: precisamos entender quais necessidades – reais ou simbólicas – da vida das pessoas são atendidas por esses modos preconceituosos e autoritários de pensar? Dito de outro modo, o que essa concepção autoritária e violenta da vida fornece concretamente na experiência dos sujeitos que aderem às configurações neonazistas?[4]

O registro de células neonazistas no Brasil começa nos anos de 1980 com o movimento Skinhead. Antes dos anos 1980 não há registros nem estudos sobre sua existência no país. Portanto, é essa conjuntura de estagnação econômica e a incerteza política durante o período de redemocratização que deu origem a essa forma de organização.[5] O único estudo que eu conheço desse período é da Helena Salém: As tribos do mal [6]. Nele a autora menciona a existência de 12 grupos neonazistas em atividade no Brasil na década de 1980, localizados em São Paulo e no sul do país. Esses grupos perseguiam nordestinos e homossexuais, considerados responsáveis pelo atraso econômico do país, sem poupar negros e judeus. Mas, qual é o contexto do surgimento, no Brasil, dos grupos neonazistas?

Globalização e Neoliberalismo

Desde o início dos anos 1980, vivemos uma nova e profunda reestruturação do capitalismo, caracterizada pela produção just in time, a mão de obra multifuncional, a flexibilização dos contratos e a transferência em massa de empresas de países capitalistas centrais para aqueles nos quais a mão de obra é miseravelmente paga. A isso se deu o nome de globalização. Desde então, vemos o fortalecimento, o vigor e a confiança militante da alta burguesia retomando as rédeas da ação pública, desde que o Estado de bem-estar social havia limitado a sua ação. A esse conjunto de novas ações, costumamos dar o nome de neoliberalismo.[7] A expansão da informalidade é o resultado das transformações do mundo do trabalho nos últimos 30 anos.

É cada vez maior o número de trabalhadores informais e daqueles que jamais voltarão a encontrar um emprego com registro em carteira ao longo de suas vidas. A insegurança agora é a regra [8]. A esse fenômeno damos o nome de precarização.

Fake News: a mentira a serviço do mercado

As transformações econômicas têm sua contraface política. Em 2006 uma pesquisa da Freedom House – um centro estadunidense de estudos e análises sobre a democracia – apontou que há um declínio global dos valores democráticos uma vez que: a) a democracia ficou muito cara, apenas grupos com muitos recursos podem competir efetivamente; b) para funcionar bem, a democracia exige um mínimo de equidade social, mas o que acontece no mundo, desde o fim dos anos 1980, é o crescimento brutal da desigualdade; c) a corrupção da classe política solapa a crença na democracia.

Em 2018, a União Europeia promoveu um inquérito entre cidadãos e organizações jornalísticas com o objetivo de avaliar a relação entre os agentes de mercado e as fake news. Oitenta e quatro por cento acreditavam que as fake news se difundiam para orientar o debate político; 65%, que elas eram produzidas com o objetivo de gerar receitas para empresas e indivíduos. A consequência é que a esperança nas instituições democráticas vem sofrendo fortes abalos nos últimos 40 anos. A crença de que a democracia seja ainda capaz de resolver os problemas das sociedades está, atualmente, entre 10% e 20% da população, mesmo em países de democracia consolidada. Em situações de crise e de transformação social acelerada as pessoas “podem assumir uma faceta antidemocrática de apoio a atos de violência contra grupos de minorias – da mesma forma que se mostra possível, contrariamente, que os mesmos indivíduos apoiem e reforcem valores democráticos em outros contextos.”[9]

A crença nos valores democráticos dá lugar a um tipo autoritário de pensamento e de vida. Hoje parece haver a combinação entre “as ideias e habilidades típicas de uma sociedade altamente industrializada com as crenças irracionais ou antirracionais”. O que emerge dessa combinação é um comportamento, ao mesmo tempo, “esclarecido e supersticioso, orgulhoso de ser individualista e com medo constante de não ser como todos os outros, zeloso da sua independência e inclinado a se submeter cegamente a poder e à autoridade.”[10]

Religião, ciência e tecnologia

Outro efeito paralelo é o crescimento da religiosidade, que vinha declinando desde o Iluminismo[11]. Esse crescimento é a expressão da busca por comunidade, camaradagem, vínculos sociais, acolhimento e solidariedade em um mundo com cada vez menos comunidade, camaradagem, acolhimento e mais competição e meritocracia. Um estudo intitulado Percepção pública da Ciência & Tecnologia no Brasil 2019, feito pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), entrevistou 2.200 pessoas de todas as regiões do país e constatou uma diminuição no número de indivíduos que consideram que a ciência e a tecnologia só trazem benefícios para a humanidade: de 54% em 2015, para 19% em 2019.[12]

A extrema-direita em Santa Catarina

Esses dados gerais nos ajudam a entender uma mudança global que favoreceu o aumento da religiosidade, o estímulo à desinformação e a descrença na ciência e na democracia. Esse quadro nos auxilia na compreensão do aparecimento de Bolsonaro e do bolsonarismo, da ascensão da extrema-direita e da proliferação dos grupos neonazistas. Mas faltam ainda explicações de porque Santa Catarina tem sido protagonista nesse retrocesso.

Eu não tenho uma resposta suficiente, mas vou levantar três hipóteses: a primeira hipótese diz respeito à propriedade da terra. Entre 1985 e 2006 houve uma redução de 41,3 mil unidades agrícolas em Santa Catarina. [13] O censo agropecuário de 2017 apontou que a agricultura familiar e as pequenas propriedades representavam ainda 78% das propriedades rurais de Santa Catarina. Mas, em 2006, a agricultura familiar representava 87%, e em 1995, 96% [14]. Ou seja, entre 1995 e 2017, desapareceram 18% das pequenas propriedades rurais familiares, enquanto a área agrícola cultivada, no mesmo período, aumentou aproximadamente 10%. São dois fenômenos: Santa Catarina está deixando de ser o paraíso da pequena propriedade e a concentração da propriedade está se acelerando. Quem perde o acesso à terra faz o que? Ou se torna assalariado no meio rural ou migra para as cidades. Mas em ambos os casos suponho que a raiva aumente e que alguém será responsabilizado por aquilo que é vivido como uma perda.

A segunda hipótese remete ao estudo da antropóloga Giralda Seyferth e sua noção de colono-operário. Ela estudou sobretudo a região nordeste do estado de Santa Catarina e mostrou que as famílias numerosas e a pequena propriedade empurravam – entre o plantio e a colheita – uma parte dos colonos para o trabalho industrial. Contudo, eles nunca se identificavam como operários ou se envolviam com a organização operária. Isso, ao menos em parte, ajuda a entender a baixa ocorrência de greves em Santa Catarina. [15]

A terceira hipótese diz respeito ao fato de que Santa Catarina, muito provavelmente, é o estado brasileiro que mais se identifica como europeu. Isso aparece na propaganda de seguidos governos municipais e estadual. É como o estado se apresenta no cenário nacional e se vende na indústria do turismo. Paradoxalmente, isso foi acentuado nos últimos 40 anos nas grandes enchentes no vale do Itajaí, de 1983. A recuperação das cidades (com a ajuda do governo alemão) e a criação da Oktoberfest (vendida como a maior festa alemã fora da Alemanha) reforçam a autoimagem de Santa Catarina como o estado mais europeu do Brasil. São conhecidos os casos em que as prefeituras da região do vale oferecem isenção de impostos para quem construir casas no estilo “alemão enxaimel”. E como o diabo mora nos detalhes, as pessoas começam a acreditar e a levar a sério o que a indústria do turismo vende como um produto.

Isso dá origem a uma autoimagem dos catarinenses e uma imagem que o restante do Brasil compra de Santa Catarina, como se fosse um estado mais alemão, mais trabalhador, mais sério. Um estado diferenciado, com mais progresso, cultura, menos miscigenação, mais branco. Um estado no qual a presença negra foi irrelevante.

O conjunto de transformações do capitalismo nos últimos 40 anos – composto pelo neoliberalismo, globalização, aumento da religiosidade, militarização da vida, descrença na democracia e rejeição da ciência – modifica objetivamente nossas vidas, mas, acima de tudo, o modo como sentimos e pensamos a vida coletiva.

Se as minhas sugestões fizerem algum sentido, nosso problema é muito maior do que combater células neonazistas, porque elas são um dos sintomas de transformações profundas no capitalismo e no nosso modo de vida.

Mas, o que podemos fazer aqui e agora?

  1. Enfatizar que não há saída individual para essas transformações do capitalismo;

  2. Lutar com toda nossa energia para a transparência nas ações públicas e nas decisões políticas;

  3. Reconstruir a esperança de que “outro mundo é possível”;

  4. Restaurar as práticas políticas de uma ação coletiva universalista em que sejamos indiferentes às nossas diferenças, em nome do que nos une como humanidade;

  5. Compreender que a democracia não é apenas um meio, mas a finalidade central da nossa ação política.

Espero que tenhamos sabedoria para compreender a gravidade do momento em que estamos mergulhados.

***

[1] Adriano Duarte, membro da diretoria do Instituto Movimento Humaniza Santa Catarina e professor de história contemporânea na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

[3] Mosquera, Martin. Milei é uma ameaça fascista? Jacobin. https://jacobinlat.com/2023/11/17/es-milei-una-amenaza-fascista/  Acesso em: 21 nov. 2023.

[4] Adorno, Theodor. Preconceitos no material das entrevistas. In: Estudos sobre a personalidade autoritária. São Paulo. Editora da Unesp, 2019, p. 265

[5] Andrade, Guilherme Ignácio Franco de. A trajetória da extrema direita no Brasil: integralismo, neonazismo e revisionismo histórico (1930-2012). Anais do V Simpósio Internacional Lutas Sociais na América Latina: revoluções nas Américas: passado, presente e futuro. 10 a 13/09/2013. GT 9. Pensamento da direita e chauvinismo na América Latina.

[6] Salém, Helena. As tribos do mal: o neonazismo no Brasil e no mundo. 3ª ed. São Paulo. Atual, 1995.

[7] Esse é o argumento central do livro: Duménil, Gérard e Lévy, Dominique. A crise do neoliberalismo. São Paulo. Boitempo, 2014.

[8] A estabilidade é uma condição cada vez mais rara na experiência de trabalho de homens e mulheres: precariedade e instabilidade são as experiências mais comuns para quem ingressa no mercado de trabalho hoje.

[9] Costa, Virginia. Resumo de The authoritarian personality. Adorno. Theodor. Estudos sobre a personalidade autoritária. São Paulo. Editora da Unesp, 2019, p. 40. Uma definição de fascista: “…qualquer um que expresse hostilidade aberta em relação a grupos minoritários e endosse o uso da força quando ‘necessário’ para suprimir tais grupos: e que defende explicitamente um governo ‘forte’ para proteger o poder dos negócios contra as demandas de sindicatos e grupos políticos progressistas – até o ponto de suprimi-los pela força.” (p. 66).

[10] Prefácio de Max Horkheimer para Adorno; Frenkel-Brunswik; Levinson; Sanford. The authoritarian personality. New York. Harper & Brothers, 1950. In: Costa, Virginia. Resumo de The authoritarian personality. Adorno. Theodor. Estudos sobre a personalidade autoritária. São Paulo. Editora da Unesp, 2019, p. 29.

[11] Vovelle, Michel. Ideologias e mentalidades. São Paulo. Brasilense, 1987.

[12] A pesquisa registrou ainda uma redução na proporção dos que consideravam os cientistas pessoas que fazem coisas úteis para a sociedade. Em 2010, esse número era de 55,5% dos entrevistados, em 2015 caiu para 52% e, em 2019, para 41% e continua caindo (Andrade, Rodrigo de Oliveira. “Resistência à ciência”. Pesquisa Fapesp, n° 284, outubro de 2019).

[13]. “A partir do início dos anos de 1980 (…) fica cada vez mais evidente o crescimento da concentração da posse da terra e aumento dos conflitos fundiários em muitas regiões do estado; concentração da renda agrícola; geração de uma massa de pequenos produtores e sem-terra pauperizados e marginalizados; aumento do controle do processo produtivo pelos grandes complexos agroindustriais; desinteresse de jovens pela atividade agrícola e pelo espaço rural; diminuição do emprego agrícola; aprofundamento de desigualdades dentro e entre regiões; êxodo rural; degradação dos solos agrícolas; poluição e redução dos mananciais de águas; ocupação de solos e regiões inadequados para o uso agrícola; comprometimento da biodiversidade; dentre outros.” Marcondes, Tabajara; A agropecuária em Santa Catarina: cenário atual e principais tendências. Revista NECAT – Ano 5, nº9 Jan-Jun de 2016, p. 11.

[14] Idem, p. 31.

[15] Seyfert, Giralda. 1984. Camponeses ou Operários? O Significado da Categoria ‘Colono’ numa Situação de Mudança. Revista do Museu Paulista, n° 29, 1984.

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