Fascismo se chama fascismo
- HUMANIZASC

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Sigamos o exemplo dos EUA: fascismo se chama fascismo
Diante da realidade brutal que os Estados Unidos da América está vivendo, editoriais e artigos clamam por uma constatação tardia: não há mais como chamar o fascismo por outro nome. Alguns, a quem ainda resta o humor, questionaram: será que aqueles que diziam que era “prematuro” chamar o fascismo de fascismo querem esperar mais um pouco?
Há pesquisadores que optam pelo termo “neofazismo” para essa onda contemporânea de violência e ataques orquestrados pela extrema direita ao redor do mundo e no Brasil. Por aqui também devemos encarar a pergunta de frente: é sério que vocês querem esperar para chamar o fascismo de fascismo?
Em Santa Catarina, particularmente, devemos encarar a pergunta de forma mais específica: até quando vamos esconder o fascismo e todas as suas violências sob o suposto “conservadorismo”?
Em 2022, o curta-metragem Gritos do Sul teve sua pré-estreia no Teatro do SESC Joinville. Em 2023, o filme que escrevi e dirigi foi atacado de forma orquestrada pela extrema direita e eu perseguida por vereadores e pela Secretaria de Cultura e Turismo de Joinville. Eu, enquanto mulher e profissional, sofri perseguição política de gênero. Capitaneado por um deputado estadual e dois vereadores, o ataque foi mais um alimentado pelos ideais fascistas e o filme foi usado para emergir violenta censura aos projetos culturais nos editais de cultura da cidade.
Em 2025, a Oficina Produções, a mesma que produziu o curta-metragem, realizou a 2a Mostra Joinville faz Cinema, com exibições no Teatro do SESC Joinville. Estava previsto que a direção do SESC teria acesso prévio a todos os filmes que seriam exibidos na Mostra. A surpresa da produção do evento, porém, se deu quando nos deparamos com a proibição de passarmos um média-metragem que havia sido selecionado e… o curta-metragem Gritos do Sul, na mesma sala onde ele havia sido exibido cerca de dois anos antes.
A justificativa, da parte do SESC, para a censura dos dois filmes, foi taxativa: “Santa Catarina é um estado muito conservador” e os filmes continham “imagem de político contemporâneo” o que é vetado por eles. Caso fosse descumprida a censura, os empregos da equipe estariam em risco. Precisamos chamar a censura pelo seu nome: censura.
No dia do evento, o funcionário responsável pelo local subiu à sala de projeção durante a Mostra Oficina, da qual o Gritos do Sul faria parte. Em nenhum momento a produção do evento sinalizou ou planejou exibir os filmes censurados. Para quem estava ali, aquela presença fiscalizadora nos fez ter os mais sinistros sentimentos e de imediato lembrarmos das canções e relatos do período mais nefasto da nossa História, quando, durante a ditadura militar, cidadãos, artistas, professores e jornalistas eram perseguidos, vigiados e coagidos. Será um trauma que não esqueceremos tão cedo.

Desde então, tenho afirmado que o suposto “conservadorismo” proclamado aos quatro ventos em Santa Catarina é uma máscara de tiara com flores para esconder violências. Essas violências se traduzem em censura, perseguição, coação, intimidação e total ausência de empatia e respeito pelo outro - seja ele opositor político, de outra cor da pele, pessoa LGBTQUIAPN+, imigrante ou um brasileiro nascido fora de Santa Catarina.
Ao pesquisar e me aprofundar sobre a ascensão do fascismo em Santa Catarina para o documentário Mapa do Silêncio, desenvolvido pela Oficina Produções, Adorno tornou-se uma referência fundamental para compreender a figura da imagem totalitária e como o cidadão comum, no seu Estudos sobre a personalidade totalitária, é a base da construção do fascismo. Foi assim em outros tempos e é aplicável aos nossos dias, quase sem ressalvas.
Os discursos de violência - porque todo discurso é ação - plantaram a semente e fizeram brotar o fascismo na mente e nos corações. Mas, claro, ninguém quer chamar o fascismo de fascismo. Cada vez que, com a câmera do celular ligada, um político faz alusões a estuprar mulheres, a discriminar pela cor da pele ou origem de determinada região do país, incita a pegar em armas fazendo o gesto com as mãos e a “metralhar” opositores políticos ele é responsável por plantar o fascismo.
Santa Catarina não é um estado conservador.
Santa Catarina não é um estado fascista.
Santa Catarina conta com parte da população que aderiu ao fascismo - nos seus valores e nas suas práticas. Santa Catarina tem personagens da política estadual que surfaram na onda do bolsonarismo, espalhando a semente do discurso violento da discriminação e da superioridade racial e social, que nunca tiveram nem têm projeção nacional. São esses políticos irrelevantes a nível nacional que buscam ser o ninho da resistência da extrema direita do Brasil. O fascismo tem nome, se chama fascismo e habita a atuação desses políticos que podem ser facilmente descartados por um carioca que tenha um sobrenome italiano, é claro, mais famoso nacionalmente.
No estudo da escala F, Adorno e sua equipe elaboraram frases simples sobre temas como cultura, sexualidade, economia e raça e as pessoas selecionadas para a pesquisa tinham que dizer se concordavam ou não com as afirmações. É o que podemos aplicar hoje a uma frase que ouvi algumas vezes recentemente: está difícil encontrar uma empregada/funcionário para contratar porque tem muitos projetos sociais; preferem receber ajuda do governo do que trabalhar.
Uma frase aplicada no estudo, com estadunidenses do pós-guerra, dizia que “O homem de negócios e o industriário são muito mais importantes para a sociedade do que o artista e o professor” e essa nem precisa ser atualizada. Quando ouvimos essas frases, estamos diante da proliferação do fascismo.
Em Santa Catarina, o terreno fértil de pessoas incitadas por frases que de inocente não têm nada resulta em atentados à escolas, tortura e assassinato de animais indefesos, alto número de feminicídios e precária estrutura de atendimento às mulheres vítimas de violência doméstica, casos de xenofobia e ataques violentos à pessoas em situação de rua. O fascismo se chama fascismo.

Em Santa Catarina, há pessoas que vivem da violência: ganham curtidas e milhares de visualização ao dizer que nordestinos devem ficar lá, portam armas em fotos e vídeos, pregam a separação do sul, nos ensinam a como “fazer alemãezinhos”, caluniam comunidades periféricas históricas do Estado e querem exigir controle de “fronteira”.
Santa Catarina não precisa testemunhar uma milícia, autorizada pelo Estado, matar cidadãos nas ruas, sob a justificativa de controlar a migração, para compreender algo urgente: o fascismo se chama fascismo. Já ultrapassamos qualquer linha.
Cada um que vier atacar este texto ou a sua autora, como fizeram com o texto da Alana Lazaretti, também fruto da nossa pesquisa para o documentário, estará corroborando com o fascismo. Eu já fui, quando escrevia para um blog de Joinville, atacada até mesmo pelas minhas origens, por ter nome e sobrenome sírio-libanês - me mandaram ir “morar” lá e usar burca. Isso é fascismo.
Na minha mente e no meu coração o fascismo não fez morada e isso faz de mim um alvo dos fascistas. Em Santa Catarina, eu não sou a única. Porque é um princípio do fascismo, atacar seus opositores. O desastre anunciado nos EUA nos traz muitas lições: chega de moralismo, reticências e receios culturais, teóricos e históricos para não darmos nome aos bois. E nós somos alvo fácil porque além de não aderirmos ao fascismo, lutamos publicamente contra ele. Não sou a única, mas ainda somos poucos. É fascismo circular com um carro adesivado com uma enorme suástica e o clamor pela guerra civil.
É fascismo extinguir cotas raciais nas universidades do Estado e obrigar escolas públicas e privadas a instalarem câmeras nas salas de aula. Pelo menos nos banheiros não vão exigir câmeras, pois o número de crimes de pornografia infantil e estupros de menores em Santa Catarina é assustador. O fascismo está no poder.
Para quem ainda tem dúvidas sobre como podemos perder a vergonha e chamar o fascismo de fascismo, indico o livro da italiana Michela Murgia, Instruções para se tornar um fascista. Para alguns, resta o humor para abrir os corações e mentes tomadas pela violência.
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* Fahya Kury Cassins
diretora & roteirista & professora, roteirista do documentário Mapa do Silêncio, em desenvolvimento pela Oficina Produções





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