Carta a Deputada Julia Zanatta
- HumanizaSC
- 15 de jul.
- 6 min de leitura
Orgulho de ser Catarinense

Por Derci Pasqualotto*
Prezada Deputada,
Não tenho nenhuma proximidade com a Senhora, não a conheço pessoalmente, não sou seu eleitor, nasci no oeste do estado e a senhora é do Sul, mas temos algo em comum: sou bisneto de italianos e a senhora deve ser também ou, quem sabe, tataraneta. Nossos antepassados vieram da Itália, na sua grande maioria pobres e famintos, vieram a SC em busca de terra, trabalho, comida, liberdade e prosperidade.
Aqui, ao lado de alemães, portugueses, açorianos, negros, pardos, índios e tantos outros “constituíram e formaram o povo catarinense”.
Nossa afinidade acaba aqui. É muito estranho que uma descendente de imigrantes queira barrar o fluxo migratório atual em Santa Catarina. Pois, segundo sua afirmação: “Quem chega nem sempre compartilha dos nossos valores”. E associa a vinda destes migrantes a uma” ação da esquerda” para “denegrir” o estado e “afetar nosso perfil conservador”. E conclui “Quem quiser migrar para Santa Catarina tem que ser para trabalhar e contribuir, além de respeitar nossas raízes e tradições” e “eles não podem vir para cá e votar na esquerda".
Deputada, quando a senhora fala em “perfil conservador”, creio eu, está se referindo a ideologia nazifascista que a extrema-direita brasileira e catarinense defendem e praticam, mas se escondem sob o manto do conservadorismo que chamam de Movimento Conservador do Brasil – ou - Conferência da Ação Política Conservadora - CPAC, dirigida por seu amigo Eduardo Bolsonaro. Ideologia que, entre outros valores, defende ditadura militar, tortura, racismo, preconceito, xenofobia, homofobia; apoia Trump que persegue e expulsa imigrantes e taxa em 50% os produtos brasileiros e que em 8 de janeiro de 2023 quis dar “um golpe de estado” para se manter no poder, após perder as eleições livres e democráticas de 2022. Quero dizer que, se for isso, a maioria dos catarinenses não são conservadores – quero dizer - de extrema-direita, como a senhora é e quer fazer crer que todos os catarinenses são. Os valores conservadores – de extrema-direita - são valores defendidos e praticados por um grupo e um partido, que se pretende grande, mas que não representam a maioria dos catarinenses. Os catarinenses, de seu jeito, prezam e defendem a democracia.
Se por “perfil conservador” a senhora quer dizer que SC é um estado econômica e socialmente desenvolvido porque a maioria de sua população é branca e de origem europeia e, por isso, empreendedora, trabalhadora, disciplinada, criativa, culta e a ela se deve o atual estágio da sociedade catarinense, está negando a origem do nosso povoamento, da constituição do povo catarinense e os fundamentos do nosso desenvolvimento. Esta pretensão nasce da crença que a “raça branca é superior as demais” e, a partir dela, negar ou invisibilizar a existência de outras etnias na composição da população catarinense e sua participação e contribuição no desenvolvimento de nosso estado.
Permita-me fazer um rápido resgate da nossa história: em 1872 a população catarinense era composta por 78,8% de brancos e 21,2% de negros escravizados e negros e pardos (Os caboclos, como os chamamos em SC). Estes negros e pardos juntos, comandados por alguns brancos, povoaram São Francisco do Sul, a ilha de Santa Catarina e Laguna e foram responsáveis pela construção dos muitos monumentos históricos do nosso estado, como: as Fortalezas, o Palácio Cruz e Souza, a Catedral. Povoaram o Planalto Serrano e o Planalto Norte organizando e mantendo as fazendas de gado e trabalhando na extração da erva-mate e da madeira. Foram os responsáveis pela produção agrícola e pela pesca. Eram eles que prestavam todos os serviços às famílias ricas da sociedade e imperial existentes em SC. Os imigrantes europeus brancos chegaram depois desta época. E a elite econômica e política, do Império e da Provincia, os trouxeram para os substituir os negros e pardos, tanto que em 1950, 78 anos depois, após o massacre dos negros e pardos, na Guerra do Contestado, ficaram reduzidos 5,2% da população catarinense.
A Guerra do Contestado (1912 e1916), ocorrida em partes do Planalto Serrano, Planalto Norte e Vale do Rio do Peixe, eram povoadas majoritariamente por negros e pardos (Caboclos). Nesta guerra morreram 20 mil pessoas, 10 mil em combates com o Exército Nacional, entre 8 e 9 mil em consequência da guerra pela fome e doenças, majoritariamente, mulheres e crianças e mil soldados do Exército. A população catarinense, nesta época era de 320 mil habitantes, sendo que na região onde ocorreu a guerra a população era de 40 mil habitantes. Isto significa que a metade da população da região e 6,5% da população catarinense foi dizimada nesta guerra. E a população dizimada, na sua quase totalidade, foi de negros, pardos e seus descendentes: f ilhos, netos e bisnetos que viviam como posseiros (em terras públicas) ou empregados nas fazendas de gado ou na extração de erva mate. Todos eles participaram ativamente do desenvolvimento da região e do estado com seu trabalho. A guerra os exterminou e destinou as terras que ocupavam para os imigrantes brancos que estavam chegando. Não houve nenhum programa para que os posseiros pudessem adquirir terra, aos moldes dos imigrantes brancos que estavam chegando.
Feito este parêntesis, volto a sua manifestação sobre a migração em SC. Talvez o que tenha “assustado e indignado” a senhora, descendente de imigrantes brancos que receberam auxílio do governo para se instalarem em SC, foram os dados apresentados pelo Censo de 2022: a) a população negra e parda em SC pulou de 5,2%, em 1950, para 23,29%, em 2022 , em pouco mais de 70 anos; b) SC recebeu nos últimos anos 503.580 migrantes internos, sendo que 44,9 mil vieram do Pará e 20,3 mil da Bahia. E, igualmente, recebeu neste período 48 mil imigrantes venezuelanos e 30 mil haitianos. Os demais vieram do RS, SP, PR e outros estados.
Quando a senhora fala que estes migrantes vêm para “denegrir o Estado, deve estar referindo aos paraenses, baianos, haitianos e venezuelanos. Queria lembrar que o termo denegrir, no seu sentido literal, significa escurecer, tornar negro ou escuro e, no sentido figurado, macular ou difamar a reputação de alguém. O uso deste termo tem conotação com a prática racista, ou seja, não querer que muitos migrantes negros ou pardos venham para SC. A SC branca não os quer. Além de racismo, expressa preconceito e xenofobia. Aliás, os sulistas brancos nuca esconderam seu preconceito contra os nortistas e nordestinos, posição ideológica e política reforçada pela extrema-direita, da qual a senhora faz parte.
A senhora diz, ainda, em seu comentário: “Quem quiser migrar para Santa Catarina tem que ser para trabalhar e contribuir, além de respeitar nossas raízes e tradições”. Creio que quem sai de seus lugares de origem estão em busca de: trabalho, comida, oportunidades, dignidade e prosperidade, como os italianos, alemães e outros queriam, quando aqui vieram. Talvez a deputada não tenha se dado conta que a diarista que cuida de sua casa seja uma baiana, paraense ou quem sabe uma venezuelana; que a pessoa que a atende no supermercado, onde faz compras, seja uma venezuelana, um haitiano ou um nordestino; que nos frigoríficos do estado os venezuelanos, haitianos e nordestinos estão trabalhando duro para produzir a riqueza do agronegócio; que na construção civil da “Dubai Brasileira – nossa Balneário Camboriú “ e em outras cidades- trabalham centenas destes migrantes; que muitos dos que fazem as fábricas de Joinville, Blumenau, Criciúma, Jaraguá produzirem, igualmente, são migrantes; quem nos setores de serviços de todas as cidades catarinense trabalhem muitas centenas deles. As pessoas que migraram para Santa Catarina, na sua maioria absoluta, vieram para trabalhar. Talvez, se a migração fosse só ricos que escolhem SC para usufruir a riqueza que acumularam na vida ou de quem vem “lavar dinheiro do tráfico, da roubalheira, da corrupção ou da exploração dos trabalhadores e dos pobres” em Balneário Camboriú a deputada não falaria em “negritude e não aceitação dos nossos valores”.
Por fim, dizer que “os migrantes veem morar em SC para votar na esquerda”, revela sua contradição e incoerência (ou, talvez, ignorância) diante da sua posição política de extrema direita que tanto “brada aos quatro ventos” em defesa do “direito de liberdade”. Quer dizer, então, que os migrantes não têm direito de liberdade de escolha quanto ao seu voto?
Um abraço e dizer que tenho orgulho de ser catarinense e que recebo com muito respeito, como a maioria dos catarinenses, todos quantos quiserem morar, viver, trabalhar em nosso estado. Os descendentes de meu bisavô vivem bem aqui em SC, tanto com os “nascidos catarinenses” como com os que “adotaram SC”, sejam brancos, negros ou pardos.
Fpolis, julho 2025.
Derci Pasqualotto.
*Derci Pasqualotto é filósofo, sociólogo e educador popular. Aposentado.





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