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Crianças, Blindados e Armas

Por: Diego Feijó de Abreu*


Blindados, Tiros e Crianças: Mega Parque Militar de R$ 100 Milhões

em Santa Catarina Vira Alvo de Cerco Institucional


Instituto Humaniza SC aciona Ministérios, MPF, Exército e Conselhos Tutelares exigindo fiscalização rigorosa sobre o Bravura Park. Ofícios alertam para a banalização da violência e a normalização do "turismo armamentista" para o público infanto-juvenil no estado.

A promessa de lazer familiar no recém-anunciado Bravura Park, um megaempreendimento de R$ 100 milhões às margens da BR-101 em Tijucas (SC), transformou-se no epicentro de uma disputa sobre os limites da exploração econômica e a militarização da infância. Anunciado como o maior parque temático militar da América Latina, o complexo entrou oficialmente na mira de uma rede de órgãos de controle e proteção aos direitos humanos.


Documentos obtidos pela reportagem revelam uma ofensiva jurídica e administrativa movida pelo Instituto Movimento Humaniza SC. A entidade expediu uma série de representações ao Ministério Público, Forças Armadas e Ministérios do Governo Federal. O foco dos questionamentos não é barrar a livre iniciativa privada, mas exigir transparência sobre um detalhe alarmante: a exposição de crianças a estandes de tiro, simuladores bélicos e veículos de guerra reais.


Um Cerco Integrado:

De Conselhos Tutelares ao Ministério da Defesa

O rigor da investida do Humaniza SC se traduz na amplitude dos órgãos acionados. No Ministério Público Federal (MPF) (Protocolo 20260056066) e no Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) (Protocolo 11.2026.00016348-0), a entidade pede a instauração de Procedimentos de Apuração e Notícia de Fato para investigar o licenciamento e a regularidade do empreendimento.


A teia de cobranças enviada a Brasília e às esferas estaduais mapeia o vácuo de fiscalização que pode cercar o empreendimento. Entre os principais ofícios enviados, destacam-se:


  • Exército Brasileiro (SFPC): Questiona se há Produtos Controlados no parque (como armas de fogo ou de pressão) e se o complexo possui Certificado de Registro válido e adequado para operar com o público infantil.

  • Ministério da Defesa: Cobra explicações sobre uma eventual cessão de viaturas, aeronaves desativadas ou autorização para o uso de símbolos institucionais das Forças Armadas para fins de lucro privado.

  • Secretaria Nacional da Criança e do Adolescente (MDHC): Solicita uma avaliação técnica para saber se há diretrizes que regulem ou coíbam a inserção de menores em atividades recreativas que simulem táticas de combate.

  • Conselhos de Direitos (CEDCA/SC e CMDCA Tijucas): Pede providências sobre a compatibilidade do parque com o princípio da Proteção Integral e da Prioridade Absoluta garantidos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).


A “Disneylândia do Tiro” e o Cenário Catarinense

Para entender a polêmica do Bravura Park, é preciso observar o contexto sociopolítico de Santa Catarina. O estado tem se consolidado como a grande vitrine nacional do turismo armamentista e do estilo de vida outdoor associado ao mundo tático.

A capital econômica do estado, Joinville, sediou por três anos consecutivos a Shot Fair Brasil, a maior feira de armas e equipamentos para a prática de tiro da América Latina. No plano institucional, a Assembleia Legislativa (Alesc) aprovou e o Governo do Estado sancionou a polêmica Rota Turística do Tiro, fomentando uma rede de clubes de tiro sob a justificativa de incentivo ao esporte. Além disso, o estado tem capitaneado a expansão de escolas cívico-militares, na contramão das diretrizes federais.


“O que o Humaniza SC questiona não é a liberdade econômica, mas o dever constitucional de proteger crianças e adolescentes contra a normalização do bélico e a banalização da violência, um debate que não pode ser ignorado pelo Estado.”


Próximos Passos

Ao solicitar a manifestação técnica da Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp), o Instituto ressalta que esse modelo de negócio, se não possuir uma regulamentação estrita, pode abrir um precedente perigoso de militarização comercializada do lazer infantil em todo o território nacional.


As representações já geraram protocolos oficiais. O próximo passo do xadrez jurídico dependerá das respostas institucionais do MPF, MPSC e, sobretudo, das pastas ligadas ao Governo Federal, que precisarão decidir se o roteiro pedagógico de “mini blindados” e armas de pressão fere, ou não, o desenvolvimento saudável garantido pela legislação brasileira.




Diego Feijó de Abreu é jornalista investigativo especializado em jornalismo de dados e auditoria de gastos públicos. Com foco em transparência governamental e política, é autor de investigações de repercussão nacional sobre abuso de poder econômico e desinformação digital. Além de repórter na Revista Fórum, já escreveu investigações em outros veículos, e é instrutor de auditoria cidadã.

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