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A doutrina intelectual da ultradireita

"Extrema-direita reivindica o “realismo da crueldade”, com eliminação dos mais vulneráveis"




Moysés Pinto Neto em entrevista ao IHU  - Publicado em 15/04/2024


Um movimento orquestrado por diversos atores cresce e ascende no cenário mundial, ainda que traga consigo traços de fascismo, nazismo e autoritarismo. Uma “rede de conservadorismo e ressentimento” que se vale das plataformas digitais para disseminar o ódio. Essa é a extrema-direita, que ascendeu ao topo em diferentes países, do Norte rico ao Sul em desenvolvimento. Mas como esse movimento ganhou ainda mais força no Brasil?


Para chegar ao poder, a extrema-direita não mede esforços e se vale das estratégias mais repulsivas, inclusive, com o uso da violência. É o que aponta Moysés Pinto Neto, em entrevista concedida por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU. Segundo o professor, “o traço essencial da extrema-direita não se passa na linha do tempo, mas na utilização da violência como forma de manutenção do poder e na ideia de que um segmento social, baseado em algum elemento específico, tem direito a manter a hierarquia pela força”, coloca.


Ao longo da conversa, Moysés Pinto Neto também falou da aderência à extrema-direita no Rio Grande do Sul, cuja capital foi por anos comandada pelo PT e foi berço de movimentos como o Fórum Social Mundial – FSM, o Orçamento Participativo e o “barril de pólvora de 2013”. A nostalgia e a comparação com o passado, coloca o filósofo, “já se mostraram ineficazes para vencer a disputa política. São 20 anos de gestões de direita na Prefeitura”, lamenta.


A presença de Jordan Peterson e a parceria com a Brasil Paralelo no Fronteiras do Pensamento significa uma guinada à direita do evento, explica o professor. Se antes contávamos com intelectuais de grande expressão, como “Zygmunt Bauman, Gilles Lipovetsky e Edgar Morin”, agora “o Fronteiras busca naturalizar a discussão trazida a um eixo muito à direita, da mesma forma que os norte-americanos foram empurrando a janela de Overton chamando a social-democracia de comunismo […] enfim, manter a disputa entre uma centro-direita muito moderada e uma extrema-direita muito radical (supremacista). Mesmo os neocons, como Bush, hoje são tidos como moderados por lá. É o mesmo que querem fazer aqui”, adverte.


Moysés da Fontoura Pinto Neto é doutor em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, com período-sanduíche no Centre for Research in Modern European Philosophy, no Reino Unido. É editor do canal Transe e fundador da plataforma educacional Alternativa Hub.

Confira a entrevista


Como você definiria a chamada “nova direita” ou extrema-direita? O que há de novo em relação à direita tradicional?


Há aspectos de continuidade e descontinuidade.

Na continuidade, destacaria em geral aquilo que caracteriza a direita em qualquer das suas modulações, isto é, a defesa de que, pela razão x ou y (economia, mérito, religião, raça, nação, gênero, etc.), as hierarquias são justificadas na sociedade. Durante os avanços nos direitos daqueles que estão na condição de subalternos, a direita se posiciona de modo “conservador”, entendendo que existe razão suficiente para que o status quo seja mantido. Em circunstâncias nas quais a “janela de Overton” se desloca mais para a direita, surge então a extrema-direita: quando não se trata apenas de evitar incremento nos direitos dos subalternizados, mas ativamente promover o governo da força afirmando a supremacia de uma certa camada sobre outra da população. Em geral, chamava-se isso de “reacionário”, no sentido de restaurar uma ordem perdida, mas penso que o termo ainda está preso no imaginário do progresso. O traço essencial da extrema-direita não se passa na linha do tempo, mas na utilização da violência como forma de manutenção do poder e na ideia de que um segmento social, baseado em algum elemento específico, tem direito a manter a hierarquia pela força.


Em relação à descontinuidade, chamaria atenção para o abandono da ideia de “ordem”. Hoje, a extrema-direita é propagadora do caos. Ao contrário dos modelos nazista e fascista do início do século XX, baseados na verticalidade e na utilização do Estado como meio para impor suas decisões – embora Arendt tenha mostrado que não é bem assim em As origens do totalitarismo – hoje a extrema-direita funciona fomentando a desregulação e o caos. Seu programa, próximo do que é chamado bizarramente de “anarcocapitalismo”, é de impor a força não por meio de um governo, mas da ausência dele. Assim, sistemas informais de controle substituem os formais, que eram baseados em princípios jurídicos que limitavam as ações dos poderes em relação a seus alvos.


A desregulação, chamada “liberdade”, é o poder de impor sua vontade sem limites, de acordo com o tamanho da força (econômica, política, religiosa, étnica, racial, de gênero), sem encontrar qualquer freio normativo. Por isso, a demanda não é pelo “direito” à liberdade, como supostamente a imprensa transmite, como um pombo-correio domesticado, mas pela imunidade geral ao direito. Nunca houve um sistema jurídico que não se baseasse na limitação das ações individuais em relação a outros direitos de outrem: meu direito à locomoção não permite, por exemplo, agredir alguém com um soco. Mas é exatamente isso que a demanda por “liberdade” da extrema-direita reivindica: exercer o poder sendo imune ao controle jurídico.


Como a nova direita compreende o que é a esquerda e quais as consequências políticas disso?


De uma maneira genérica, ser de esquerda (o que dá quase na mesma que ser “comunista” ou “woke”), significa perceber a dimensão social dos problemas. A extrema-direita reivindica o realismo da “crueldade” do mundo. Bolsonaro, por exemplo, sempre recusou pedidos de aumento de direitos afirmando que “não teria poder para isso”, pois não seria “hipócrita” a ponto de negar a violência e a dureza do mundo. Na pandemia, isso ficou bem explícito: sobrevivam os mais fortes, não temos tempo para choramingar em relação às vidas dos fracos que foram perdidas. O principal problema da esquerda seria, por isso, sua hipocrisia, ao afirmar que é viável um mundo justo para todos, diante do cinismo da extrema-direita que reconhece o individualismo predatório como a única forma possível de vida (algo próximo do “realismo” que Mark Fisher ligou ao capitalismo, mas que a extrema-direita leva mais longe).


A principal consequência disso é a tentativa de abolir todas as formas de solidariedade social, especialmente aquelas sustentadas pelo Estado. Por isso, todo tipo de legislação protetiva, como a das crianças e adolescentes (ECA), o direito do trabalho (CLT), a defesa do meio ambiente, dos povos indígenas, da população LGBTQIA+, enfim, todo tipo de reconhecimento formal e informal das relações sociais – e de uma possível solidariedade entre os indivíduos – é negada como hipocrisia e freio ao progresso. No imaginário da extrema-direita, só existem indivíduos e suas famílias. Mas, ainda mais longe que a já extremista Margaret Thatcher, esses indivíduos não estão sujeitos sequer a uma lei comum: eles podem impor-se pela força.


Qual é a cara da extrema-direita no Rio Grande do Sul? Não me refiro somente a pessoas, mas instituições que dão sustentação a esta visão de mundo.


O RS não está fora da curva mundial da extrema-direita. Em geral, seus principais ícones são homens brancos ricos que controlam boa parte da informação e do mercado, sendo capazes de impor suas vontades de modo arbitrário e contrariando padrões jurídicos e éticos mínimos. O RS também contribuiu para a formação de duas especificidades do autoritarismo brasileiro: seu papel nas ditaduras foi indiscutível, desde Getúlio Vargas até Ernesto Geisel, e por isso existe uma mentalidade visceralmente ligada ao governo pela força por aqui.


Além disso, agora na sua face mais moderna, o RS produziu a neocolonização da coluna oeste do país, do Sul ao Norte, criando boa parte do caldo cultural, político, econômico e social das monoculturas e da exploração de áreas biodiversas pela pecuária. O que se repete no interior do Estado, claro. Assim, podemos dizer que, em parte, o gaúcho foi construtor da mais poderosa figura da extrema-direita da atualidade: o “ruralista” e seu séquito de adeptos culturalmente. Isso não foi apenas construção gaúcha, porque também a cultura “caipira” do interior de São Paulo produziu modulações estéticas, assim como a incorporação dos rednecks norte-americanos. Ou seja, a colonização gaúcha, que explorou as políticas de etnogenocídio das populações indígenas durante a Ditadura para conquistar mais terras, hoje compõe o quadro sob a rubrica eufemística do “agronegócio”.


Aqui também foi um dos laboratórios da tendência anarcocapitalista, que radicalizou um setor econômico que já havia fortemente aderido ao neoliberalismo durante o governo Antônio Britto, nos anos 90, abrangendo empresários, think tanks e a mídia local. O Fórum da Liberdade talvez tenha sido uma das suas principais expressões. Mas também aqui o Movimento Brasil Livre – MBL, por exemplo, disparou a pauta moral como questão nacional na intervenção fascista contra o Queermuseu, e inclusive colocou um prefeito alinhado com o movimento (Nelson Marchezan) no poder durante um mandato. O papel do “Parcão” no cenário urbano de Porto Alegre, com uma forte mobilização de 2015 até 2022, marca bem – assim como a própria radicalização da direita em Porto Alegre e no RS.


O terceiro foco talvez seja ainda mais complicado: o interior da imigração ítalo-germânica, que se bolsonarizou de modo radical, conta com uma rede muito organizada de disseminação do ecossistema bolsonarista de mídia (sobretudo WhatsApp). Esse campo espelha perfeitamente a supremacia branca aqui no Estado, de modo bem semelhante ao que se passa em Santa Catarina e no Paraná. A radicalização ali foi extrema, inclusive envolvendo boicotes a pessoas que votaram em Lula e uma sistematização total. Esses espaços hoje alcançaram um nível de radicalização inédito em relação às ideias da extrema-direita.


Quanto ao Rio Grande do Sul, que eventos ou episódios são ilustrativos da força social da extrema-direita? Até que ponto ela se atualiza no “gauchismo”?


Curiosamente, não vejo o “gauchismo”, no sentido de tradicionalismo, como algo tão forte na determinação da extrema-direita por aqui. Isso porque, como no resto do país, existe um efeito de bolsonarização sobre o setor rural que deságua na figura do “ruralista”, que por aqui não é mais tão diferente que no campo dos outros Estados. Nisso, pode se dizer que há uma relação de ida e volta entre o gaúcho que saiu do RS e colonizou o Oeste do país e suas origens aqui no Sul. O “tradicionalista” de hoje vive no espaço menor do CTG ou do Acampamento Farroupilha, mas tem pouco espaço nas figuras de poder do campo (por exemplo, o recuo da pecuária para as monoculturas).


Na verdade, até o contrário: vimos em regiões fortemente “gaúchas”, no nosso Pampa, uma preponderância da esquerda sobre a direita. Basta ver lugares como Bagé, Dom Pedrito, Caçapava do Sul, em que o PT ganhou em todos os cargos. O gaúcho que realmente vive como o gaúcho, que não é apenas o fazendeiro rico com suas caminhonetes, parece se inclinar mais à esquerda atualmente.


Uma coisa, porém, marca bem a relação entre gauchismo e extrema-direita: as relações de gênero e raça. Embora seja totalmente possível uma leitura indígena da figura do gaúcho, desde a tradição do mate por exemplo, o “tradicionalismo” embranqueceu o gaúcho, não raro o aproximando da celebrada visão criptonazista que domina enormes regiões do Estado em relação à supremacia racial branca oriunda da imigração germânica e italiana. O mesmo se passa com a questão de gênero, em que a misoginia e o machismo são naturalizados de modo a engessar os papéis e manter a hierarquia heteropatriarcal sobre a figura do gaúcho. Gostaria de destacar, nesse sentido, a importância estratégica de movimentos estéticos como a “estética do frio”, que procuram ressignificar a figura do gaúcho a partir de abordagens feministas, ecológicas e antirracistas. Cito os trabalhos de Clarissa Ferreira e Vitor Ramil cantando Angélica Freitas como exemplos dessa desconstrução.


Porto Alegre receberá em junho Jordan Peterson, no tradicional evento Fronteiras do Pensamento. Além de ser um polemista, quem é esse personagem? Quais são suas ideias e perspectivas ideológicas?


Não sou um especialista no pensamento de Peterson, estou mais focado no seu papel no ecossistema da extrema-direita. Ele ficou muito conhecido por ter “desafiado” estudantes “woke” em uma universidade no Canadá, reivindicando a “liberdade de expressão” dentro das universidades. Desde então, começou a alavancar seu trabalho atacando as políticas de gênero que afirmam a plasticidade das relações e dos corpos, como por exemplo a filosofia queer de Judith Butler. Quando começou a ficar mais famoso, começou a ampliar seu escopo para atacar como um todo o “marxismo-cultural”, conceito de origem norte-americana que foi trazido para cá por Olavo de Carvalho, cujo trabalho político é basicamente uma cópia da extrema-direita dos EUA.


Essa noção vaga de “marxismo cultural”, que é basicamente tomado como qualquer politização das relações sociais, vista como “doutrinação”, serve então de combustível para se alinhar aos fóruns mais diversos da extrema-direita, circulando o mundo inteiro e vendendo muitos livros para homens descontentes com a ascensão do feminismo. Por isso, Peterson foi “adotado” pelos trolls dos grupos masculinistas, como os “redpills” e “incels”, na medida em que supostamente ofereceu uma perspectiva alternativa “científica” ao progressivo reconhecimento de direitos para as populações dissidentes em relação às formas dominantes de gênero e sexualidade.


No cenário gaúcho especialmente, e brasileiro, que outros personagens cumprem um papel semelhante ao de Peterson?


Sim, existem diversos “gurus” do bolsonarismo na mesma linha, embora poucos com papel acadêmico. Na sua maioria, esses disseminadores vêm das plataformas digitais como influencers, ocupando o ecossistema de público criado por Olavo de Carvalho. O deputado Nikolas Ferreira e Eduardo Bolsonaro são exemplos, uma vez que, embora evidentemente sem a mínima base intelectual, importaram as polêmicas políticas dos EUA. O Brasil Paralelo é outro exemplo.




O que explica esses personagens serem vistos como “pensadores”, enquanto pesquisadores e professores universitários são vistos como “doutrinadores”?


A adesão desse público às ideias de extrema-direita. Segundo essa perspectiva, viveríamos em um mundo controlado pela cultura woke e pelo marxismo cultural. No caso do Brasil, ainda seríamos um país desde sempre e ininterruptamente (salvo no governo Bolsonaro, e olhe lá) socialista.


A crítica da “doutrinação” nasceu na esquerda para criticar conteúdos compulsórios que violavam a liberdade das crianças e dos adolescentes. Por exemplo, noções puritanas de sexualidade sem base científica ou obrigações religiosas impostas a adeptos de outras religiões ou nenhuma. Quando, porém, essa crítica se fez valer, alterando os currículos e produzindo a introdução de discussões científicas ou críticas sobre esses tópicos, os derrotados passaram a chamar seus inimigos de doutrinadores, como se houvesse apenas uma inversão dos polos.


No entanto, é óbvio que não é assim. Primeiro, porque os conteúdos estão baseados na argumentação racional e nas ciências, e não na tradição, no dogmatismo e na autoridade, como eram os anteriores. Segundo, porque nenhum desses conteúdos é imposto como uma necessidade obrigatória se envolvem controvérsia filosófica. Eles são apresentados como alternativas ao estudante para se orientar. Em certas áreas, como a medicina, há evidências que não podem ser substituídas por meras “opiniões” e a desconsideração destas não significa uma limitação de direitos, mas a simples produção do conhecimento sujeito ao erro e acerto. Terceiro, porque o que esses sujeitos reclamam não é da doutrinação em si, uma vez que eles próprios gostariam de ser os doutrinadores. Os pais que atacam as escolas querem ter o direito absoluto sobre as ideias dos filhos, como se fosse o poder do pater familias romano, e nem comento os pastores que cuidam do seu “rebanho”.


Esse problema, impulsionado pelas plataformas digitais (veja-se o trabalho de Leticia Cesarino), levou a uma criação de uma rede de conservadorismo e ressentimento: de um lado, aqueles que gostariam do retorno reacionário dos “valores tradicionais” impostos a todos indistintamente, como se fossem o único caminho possível para o desenvolvimento da disciplina e da responsabilidade; de outro, os fracassados do sistema escolar que se entendem vítimas de “injustiça”, porque suas opiniões (infundadas) não foram consideradas, como se a liberdade de expressão se confundisse com o mérito acadêmico. As peças produzidas pela extrema-direita, como o recente rascunho de fundamentação do golpe encontrado, ou os tuítes do Carlos Bolsonaro, falam por si só: trata-se de pessoas extremamente despreparadas e arrogantes, em geral acreditando que sua condição (branca, masculina, hétero, cristã, rica, forte) pudesse, por si só, levar à credibilização das suas “opiniões” fraquíssimas.


Voltando ao Fronteiras do Pensamento. O que significa o evento ser patrocinado pela RBS, empresa de comunicação jornalística com concessão pública, e pelo Brasil Paralelo, uma produtora que publica vídeos propondo revisionismos históricos (senão desinformação/fake news)? Como compreender essa contradição, se é que há?


O Fronteiras do Pensamento se celebrizou como uma ocasião para trazer ao RS grandes intelectuais. Trouxe Zygmunt Bauman, Gilles Lipovetsky, Edgar Morin, entre outros. Portanto, construiu uma marca específica. Em função da sua comunicação mais agressiva, sobretudo a partir da RBS, conseguiu atingir uma marca de público bem superior aos eventos acadêmicos, embora grandes nomes do pensamento mundial também tenham comparecido ao RS sem o mesmo alarde. Em função de uma mudança na equipe curatorial, acredito que tenha havido uma inflexão mais à direita.


O cenário atual, no entanto, indica que não foi uma inflexão suave. Ao fazer a parceria com o Brasil Paralelo, assumiu uma postura agressiva, pois a produtora não é considerada como uma interlocutora com credibilidade no país, mas como mera transmissora de propaganda de ultradireita. Basta pesquisar as pesquisas acadêmicas já feitas em todo Brasil sobre ela. Temas como escravidão, racismo, colonização e sistemas políticos são reconsiderados a partir do enfoque mais reacionário possível, subvertendo anos e anos de pesquisa e revisão crítica de conceitos produzidos pela academia. Curiosamente, se colocam contra a “doutrinação”, quando a academia é infinitamente mais diversa e problematizante, enquanto a produtora é linear, previsível e doutrinadora das ideias de direita mesmo em questões hoje praticamente indiscutíveis.


Ao realizar essa virada, trazendo Peterson em parceria com o Brasil Paralelo, o Fronteiras busca naturalizar a discussão trazida a um eixo muito à direita, da mesma forma que os norte-americanos foram empurrando a janela de Overton chamando a social-democracia de comunismo, para depois chamar o liberalismo (algo próximo do que Nancy Fraser chama de “neoliberalismo progressista”) de comunista e, enfim, manter a disputa entre uma centro-direita muito moderada e uma extrema-direita muito radical (supremacista). Mesmo os neocons, como Bush, hoje são tidos como moderados por lá. É o mesmo que querem fazer aqui.


Na virada do milênio, Porto Alegre foi uma espécie de farol global, reunindo representantes de inúmeras lutas altermundialistas no Fórum Social Mundial, em contraposição ao evento de Davos. O que houve com aquela cidade de 2000? O que ainda hoje sobrevive daquele ideário?


É uma pergunta que nós, porto-alegrenses, nos temos feito constantemente. A realidade é que a cidade mudou profundamente e é melhor virar a página do FSM, do orçamento participativo e tudo que marcou aquela época das ótimas gestões do PT. A nostalgia e a comparação óbvia com a situação triste atual já se mostraram ineficazes para vencer a disputa política. São 20 anos de gestões de direita na Prefeitura.


Prefiro olhar para uma Porto Alegre mais recente, a que fez explodir no Brasil inteiro o barril de pólvora de 2013, que mobilizava ativistas para preservar o corte de árvores no Gasômetro, a Massa Crítica das bicicletas, que buscava o “Largo vivo” e a “Defesa pública da alegria”, juntando-se ainda com os movimentos feminista, LGBTQQIA+, negro e indígena, para capitalizar um novo processo de reinvenção da cidade, como fizemos, surpreendentemente, colocando a bancada negra como protagonista da política de Porto Alegre e do RS.


Infelizmente, os partidos de esquerda, engessados pelas suas burocracias, seguem muito presos nas suas próprias memórias e dinâmicas e pouco abertos ao novo. Veja por exemplo a disputa para a Prefeitura: ao longo dos últimos seis meses, a principal discussão foi se haveria “frente de esquerda”. O que importa isso? Na prática, os votos da esquerda convergem no segundo turno. O problema é se enraizar na população, mostrar que a cidade é dominada pelas construtoras, que tem um projeto elitista voltado para os ricos, que perde constantemente seu patrimônio cultural, seus espaços públicos e sua riqueza ambiental. Isso com uma política de comunicação eficaz, uma mobilização social. Em vez disso, a esquerda fica discutindo quem será vice e quem será cabeça de chapa, e em geral os nomes são sempre os mesmos.


Nós, enquanto sociedade, temos repertório para lidar com o emaranhado de crises conexas que hoje vivenciamos? Como superar essa encruzilhada?


É uma pergunta muito ampla. Mas o que ela mostra sem dúvida é o entrelaçamento de todas as crises. O declínio do patriarcado e o backlash homofóbico, misógino e fundamentalista religioso; as vitórias do movimento negro e o rebote supremacista; a consciência do direito à autonomia dos povos indígenas e a resposta colonial violenta do mundo rural; a devastação ambiental e o negacionismo, impulsionado pelas exigências do capitalismo de crescimento infinito sem qualquer lastro material. Tudo está entrelaçado. A direita sabe disso. Por isso, seu espectro vai do garimpeiro no território Ianomâmi até Jordan Peterson, da terra ao gênero, da racialização à desregulação econômica, do discurso de ódio à devastação ambiental. A direita conhece a interseccionalidade das suas questões. E nós, conhecemos?



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