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VAQUEIRO LEVA BANDEIRA LGBTQIA+ À MISSA

Tragédia motivou vaqueiro heterossexual a levar bandeira


Adriana Amâncio – Recife-PE


Imagem: Adriano Alves

“Esse é o pedaço de pano mais pesado que já carreguei, mas eu não deixei de carregar, porque isso vai abrindo a cabeça de alguém”, afirmou o vaqueiro Walmir Calaça, de Floresta, cidade do sertão de Pernambuco, minutos após iniciarmos a nossa conversa por telefone.

O pedaço de pano a que ele se refere é a bandeira LGBTQIAPN+ que, há sete anos, ele empunha durante a tradicional Missa do Vaqueiro de Serrita, município localizado a cerca de 530 km da capital Recife, no coração do sertão.

Walmir afirma que o peso da bandeira vem do preconceito que enfrenta sempre que aparece com ela em punho nos espaços públicos. Mas é assim que o sertanejo se destaca na multidão encouraçada, adornada com gibão, bota e chapéu de couro.

Walmir, que é heterossexual, adotou o gesto após assistir a uma reportagem sobre a tragédia na boate Pulse, point da comunidade LGBTQIAPN+, em Orlando, nos Estados Unidos. Em uma noite de junho de 2016, 49 pessoas que se divertiam no local foram assassinadas.

A reportagem sensibilizou o vaqueiro e o fez observar outras pessoas, na própria cidade onde vive, sendo tratadas com indiferença e agressividade por serem homossexuais.

“Isso tocou o meu coração até que eu disse pra mim mesmo: ‘Vou homenagear essas pessoas’. Sou matuto, mas sou esclarecido e gosto de coisa difícil”

Walmir Calaça

O sagrado e o profano

Para colocar em prática o seu plano, Walmir mirou a tradicional Missa do Vaqueiro. Evento que une sagrado e profano e que, há 53 edições, reúne vaqueiros de todo os cantos do Nordeste. Para confeccionar a bandeira, mandou comprar o corte de pano em Santa Cruz do Capibaribe, polo de indústria têxtil do estado, e pediu à irmã para costura.


Imagem: Silas Donato

Ele chegou pela primeira vez à missa em 2016, montado em sua égua Cristal, parceira na empreitada. Já na entrada, no meio da multidão de vestes terracota, o colorido da bandeira de Walmir se destacava e atraía olhares. De longe, no altar, o cardeal mandou um recado: “Diga a ele que baixe essa bandeira agora!”.

Do lado de Walmir, outro vaqueiro falou em tom de alerta: “Amigo, você sabe que bandeira é essa? É a bandeira dos veados!”. Mas Walmir respondeu rápido: “Veja o que está escrito no cartaz colocado no pescoço da minha égua”.

O cartaz dizia “não ao preconceito”. Walmir não atendeu ao pedido do bispo e ainda subiu ao altar com a bandeira. “No momento do ofertório, quando cada vaqueiro leva uma peça da indumentária para ser abençoada, eu subi com a minha bandeira e a bênção foi feita assim mesmo”, relembra.

Vindo de uma família tradicional de vaqueiros, Walmir conta que compartilhou com a esposa, Marluce, e os filhos Henrique e Hermano, a mensagem de respeito às pessoas LGBQIAPN+.

“A minha mulher é orgulhosa de mim e os meus filhos têm a mente aberta e levam a bandeira para os eventos comigo. Quem tem preconceito é porque quer esconder alguma coisa.”

Walmir Calaça

A maior festa do mundo

Depois da primeira missa, Walmir conta que passou a levar a bandeira para onde ia. “Uma mulher chamada Maria do Céu, lá do Recife, me convidou para uma caminhada [Parada da Diversidade], em Boa Viagem. Pagou passagem, hospedagem, tudo. Oxe, quando eu despontei com a minha égua e a bandeira no meio dos trios elétricos foi a maior festa do mundo”, lembra orgulhoso.


Imagem: Adriano Alves

Além das participações em eventos, Walmir é convidado para palestras em escolas públicas e institutos federais de ensino da região sertaneja. “Nessas palestras, eu digo para as pessoas que não se deve ter preconceito com homossexuais, é preciso respeitar. Eu acho que esse assunto tem que ser mais trabalhado nas escolas para as pessoas aprenderem a respeitar.”

No sertão, Walmir é conhecido como vaqueiro “tampa de crush”, ou seja, um dos melhores. Agora ele também ficou conhecido como vaqueiro que mostra coragem não apenas na pega do boi, termo que se refere a laçar e inutilizar o boi na arena, levando uma mensagem de respeito à diversidade.

Ele afirma conhecer diversos vaqueiros homossexuais na região que não se sentem à vontade de tornar pública a sua orientação sexual.

“Tem vaqueiros amigos meus que são [homossexuais], derrubam um boi melhor do que um hetero, mas eles não querem tornar público.”

Walmir Calaça

Na avaliação do vaqueiro, apesar dos tabus que persistem, houve muitas mudanças em relação à homofobia no sertão. “Antes, na minha cidade, se aparecesse alguém homossexual, tinha que ir embora, pois não ia encontrar jeito de viver aqui. Hoje já é muito diferente, as coisas estão melhores.”.

Walmir, a bandeira e a coragem, aos poucos, vão modernizando o sertão. Ele confessa que o seu gesto reflete um sertanejo que vai além daquela imagem estereotipada. “Eu sou assim porque fui criado em um ambiente carrasco [áspero] e, na hora do sufoco, um tinha que aliviar a dor do outro. Nem todo sertanejo é bruto, se você olhar direitinho, no Alto Sertão tem muita gente diferente.”

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