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Disneylândia Armamentista

Shot Fair Joinville: “diversão” à base da violência em SC


Por Raphael Sanz

Mais do que a principal feira do setor que reúne representantes da indústria bélica, o evento tornou-se um espaço de encontro entre CACs, militantes, influenciadores, financiadores e políticos bolsonaristas; Conheça as principais figuras envolvidas.


Bolsonaro recebe o convite de Jorge Seif, Júlia Zanatta e Jorginho Mello para participar da Shot Fair Joinville 2021.Créditos: Reprodução/Shot Fair Joinville

armamento de civis e a consequente “cultura armamentista” que impulsiona tal pauta está na ordem do dia. Na semana que o Governo Lula assina um novo decreto que impõe mais regras e limita o acesso a armas de fogo no país, e coloca a medida sob o guarda-chuva do Programa de Ação e Segurança (Pas), o outro lado da moeda também está se mexendo. Enquanto o deputado federal e presidente do Proarmas – a principal organização lobista do setor – Marcos Pollon (PL-MS) promete se articular com a bancada ruralista para barrar os decretos de Lula, os “soldados da causa” se preparam para o principal evento do nicho, a Shot Fair Joinville, que acontece na próxima semana na cidade do norte de Santa Catarina.

Mais do que a principal feira do setor que reúne representantes da indústria bélica, o Shot Fair de Joinville tornou-se um espaço de encontro entre CACs, clubes de tiro, militantes, influenciadores, financiadores e políticos bolsonaristas. A partir da próxima terça-feira (2), toda essa fauna volta a se reunir e “trocar experiências” no seu maior evento anual pela terceira vez.

Idealizada em 2020 e inspirada pelo Shot Show de Las Vegas – evento correlato da NRA, National Rifle Association, organização responsável por aglutinar os interesses armamentistas nos Estados Unidos – a Shot Fair Joinville já foi realizada em 2021 e 2022.

Figuras como Eduardo Bolsonaro, que costurou a articulação política entre seu clã familiar e a NRA; Marcos Pollon, que como dito acumula um mandato de deputado federal com a presidência do Proarmas, a “NRA brasileira”; e Júlia Zanatta, deputada federal do PL-SC que frequentemente é pivô de polêmicas que envolvem as palavras “arma” e “Lula”, marcaram presença nas duas primeiras edições e devem se apresentar novamente.

Um documentário produzido em inglês pela Vice News retratou a Shot Fair Joinville de 2022 e mostrou que tal cultura é totalmente importada dos EUA. Também mostrou que o evento não abriga apenas clubes de tiro, fabricantes de armamentos e políticos bolsonaristas, como também influenciadores digitais e militantes [a princípio] anônimos da causa, como George Washington de Oliveira Sousa, preso dois meses após ir à Shot Fair Joinville 2022 com um arsenal avaliado em R$ 160 mil que pretendia distribuir para golpistas em Brasília derrubarem o governo Lula. Se interpelado pelas autoridades, disse que recorreria ao Proarmas para justificar sua ida a alguma competição de tiro; ele tinha registro de CAC (caçador, atirador e colecionador).

George Washington foi preso pela tentativa frustrada de explodir um caminhão de combustível aeronáutico no aeroporto de Brasília na última véspera de Natal. Na ocasião de sua prisão, o arsenal foi encontrado e, meses depois, o documentário da Vice que o entrevistou foi lançado.

Conexão bolsonarista em Santa Catarina

No início de agosto de 2021, Julia Zanatta se encontrou com o empresário Luciano Hang e com o presidente Jair Bolsonaro em Joinville. Na ocasião, ao lado de Jorginho Mello, à época senador e atual governador de Santa Catarina, e de Jorge Seif, ex-secretário da pesca de Bolsonaro e hoje senador, Júlia entregou ao ex-presidente inelegível um convite para participar de outro evento, ‘o maior de todos’, da indústria de armamentista. A Shot Fair seria realizado em Joinville entre os dias 19 e 21 de agosto daquele ano.

O evento, assim como toda a cultura armamentista presente no Brasil, foi uma imitação do modelo do Shot Show de Las Vegas, tantas vezes frequentado por Eduardo e Carlos Bolsonaro, como mostramos em reportagens exclusivas da Revista Fórum.


Reprodução/Instagram

Dado o histórico da deputada relacionado à defesa da pauta armamentista e suas movimentações nesse sentido, é possível afirmar que Júlia Zanatta é uma das pessoas responsáveis, nos bastidores, pela organização do evento. Bene Barbosa, o responsável pela palestra de abertura do evento, é outro.


Reprodução/Instagram

Do lado do clã Bolsonaro, Eduardo já era a figura responsável pela articulação entre os interesses políticos da família e o lobby armamentista internacional representado pela NRA, nos EUA. Em âmbito doméstico não foi diferente. Foi ele que promoveu o Shot Fair nos meios de comunicação ao chamar a cidade de Joinville de “Texas Brasileiro” e disse que o evento era “uma prova de que a cultura brasileira armamentista segue viva e que aos poucos vai-se avançando.”


Reprodução/Twitter

Durante o evento de 2021, Marcos Pollon, diretor do Proarmas, apresentou Júlia Zanatta ao auditório. Segundo Pollon, “hoje ela participa ativamente da pauta armamentista, e boa parte do que mantivemos no Senado, os decretos, foi por causa da ajuda da Júlia, que abriu muitas portas lá, de mais de um senador, em especial do senador Jorginho Mello [atual governador de SC] e tem ajudado também na articulação porque ela está aqui na base (SIC”.

Na época, agosto de 2021, Júlia era Coordenadora da Embratur. A fala de Marcos Pollon é um forte indício de que, na prática, ela estaria operando a serviço do Proarmas, fazendo lobby, “abrindo portas no Senado” e “articulando na base”, ou seja, com clubes de tiro, empresários e políticos locais, e com a mídia, enquanto tinha acesso à estrutura do seu cargo na Embratur. Nesse ponto, é importante levar em consideração que a Shot Fair Joinville é um evento de grandes proporções – não por acaso o consideram “o maior” do armamentismo brasileiro – e que na ocasião foram celebrados os lucros que o setor do turismo obteve na cidade através da sua realização.

Financiadores e organizadores da primeira Shot Fair, em 2021

Entre os diversos patrocinadores do Shot Fair estavam a Glock e a Springfield Armory, que também financiam o Proarmas. A Taurus também foi uma das financiadoras do evento.


A feira foi organizada, formalmente, por uma empresa de eventos chamada Planeventos Negócios. O proprietário, também intitulado CEO da Shot Fair, é um CAC chamado Mauro Braga.

Neste vídeo ele conta como o evento foi planejado desde 2020 seguindo o modelo do Shot Show de Las Vegas. Ele foi entrevistado pelo instrutor de tiro Ricardo Gebeluca em seu canal chamado “Jornal O Atlântico” na época que antecedeu a realização do evento. Nos primeiros 4 minutos é possível ver quando eles dizem que 99% dos clubes de tiro do país tem “espaço kids”, onde crianças frequentam para “iniciar o contato com a cultura armamentista.

Logo após o evento, na noite de 6 de setembro de 2021, Júlia e seu marido Guilherme Colombo acompanharam Eduardo Bolsonaro nas ruas de Brasília em atos antidemocráticos quando apoiadores de Jair Bolsonaro planejavam invadir o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal. Vale lembrar que, em 5 janeiro de 2021, Eduardo Bolsonaro esteve em Washington, na véspera da invasão do Capitólio, para se encontrar com a família Trump. Isso foi vazado por Michael Lindell, empresário da marca de travesseiros My Pillow e aliado da família Trump. No mesmo mês, Júlia comemorava o aumento exponencial de armas de fogo vendidas para civis no Brasil.


Reprodução/Instagram

Shot Fair Joinville 2022 à beira do golpe de Bolsonaro

No início de agosto de 2022, a Shot Fair foi realizada pela segunda vez em Joinville, num momento em que os movimentos golpistas escalavam pelo país sob a influência de Jair Bolsonaro, de seus filhos e seus aliados. Presume-se, mais uma vez, que Júlia Zanatta tenha sido uma das pessoas responsáveis pela organização do evento.

Na ocasião, Zanatta compartilhou em sua conta no Instagram algumas fotos de uma reunião ocorrida numa lanchonete antes de se dirigir ao centro de convenções onde ocorreria o Shot Fair. Na reunião estiveram presentes Eduardo Bolsonaro, Marcos Pollon, Guilherme Colombo e Eloir Dedonatti, então candidato a deputado estadual pelo PL de Santa Catarina, caminhoneiro, e que depois foi acusado de ser um dos articuladores dos atos antidemocráticos daquele ano e de ter participado dos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023.


Nesta postagem de 22 de outubro de 2022, na véspera do segundo turno da eleição, o instrutor Ricardo Gebeluca fez um vídeo com o senador recém eleito Jorge Seif e o candidato ao governo de SC Jorginho Mello. Seif pediu votos para Jair Bolsonaro e Jorginho e disse que ambos, somados a Júlia Zanatta, foram os candidatos do Proarmas.

Segundo fontes da Revista Fórum, pesquisadores do tema radicados nos EUA, “essa é mais uma prova da interferência da indústria armamentista nas eleições de 2022 e que ajuda a entender como o governador Jorginho Mello atua para beneficiar o segmento como, por exemplo, fechando contratos para colocar seguranças armados nas escolas de Santa Catarina.

Em 26 de agosto de 2022, Julia Zanatta postou um vídeo onde dizia que “o meu sonho é a revogação do Estatuto do Desarmamento, isso é um trabalho de muitos anos (…) tenho compromisso com a pauta armamentista.” No mesmo vídeo, referiu-se ao presidente Lula com ódio, chamando-o de “presidiário”.


Reprodução/Instagram

Chegamos a 2023

Nos primeiros dias de janeiro de 2023, uma das primeiras ações tomadas pelo recém eleito presidente Lula foi revogar diversos decretos assinados por Jair Bolsonaro que flexibilizaram o acesso a armas de fogo e que desmantelaram o Estatuto do Desarmamento.

Em 6 de janeiro de 2023, Julia Zanatta, Bene Barbosa e Jorge Seif organizaram uma reunião, em conjunto com o Proarmas, com proprietários de clubes de tiro na Assembleia Legislativa de Santa Catarina (ALESC) para se mobilizarem contra as revogações dos decretos que flexibilizaram o acesso a armas de fogo.

Na bancada, Zanatta comandou a reunião, sentada entre Bene Barbosa e o deputado estadual Sargento Lima (autor da proposta de lei da Rota Turística do Tiro), tendo ao seu lado a presença do recém eleito senador Jorge Seif. Diante deles, uma faixa com o logotipo do grupo Proarmas e uma outra com o slogan do grupo: “Não é sobre armas, é sobre liberdade”, certamente inspirada no manual da NRA.

Bene Barbosa gravou um vídeo logo após a reunião para dizer que, devido às revogações assinadas pelo presidente Lula, aquele era o momento mais crítico dos últimos 30 anos vivido pelos defensores do armamentismo, mas que um plano de ação, que não podia ser revelado, estava em curso para mudar aquela situação.


Reprodução/Instagram

Em 18 de março de 2023, já como deputada federal empossada, Júlia Zanatta postou uma foto vestindo uma camiseta que subliminarmente sugeria o presidente Lula alvejado por tiros. A estampa com o desenho de uma mão com quatro dedos perfurada por balas continha a frase em inglês “Come and take it”.

A frase é comumente utilizada nos Estados Unidos pela extrema-direita para ameaçar qualquer reforma (ou governante) que ouse tirar o seu acesso a armas de fogo. É uma provocação que, se traduzida para o português e colocada em contexto, significa “Venha e pegue – se tiver coragem” ou “venha e tire a arma de minha mão”.

Nesta postagem de agosto de 2014, Tony Eduardo (dono do Clube de Tiro .38 e ex-namorado de Júlia; clique aqui e saiba mais sobre ele) usou a frase grega “Molon Labe”, que significa “Come and take it”. A extrema-direita dos Estados Unidos se inspirou nos Espartanos da Grécia Antiga para utilizar tal frase em defesa da Segunda Emenda da Constituição.


Reprodução/Instagram

A frase também é propagada e vendida em camisetas da NRA para cultuar a Segunda Emenda da Constituição, que garante o direito ao porte de armas nos EUA. Com a polêmica, Júlia negou que se referia ao presidente Lula naquela postagem ameaçadora. “Está escrito Lula na camiseta? Não está, né? Não está escrito Lula. Eu acho que não é só ele que tem um dedo a menos ou dois, sei lá”, questionou.

Eduardo Bolsonaro, Julia Zanatta, Marcos Pollon e vários outros deputados de extrema-direita tinham feito pouco antes um protesto dentro do Congresso Nacional contra o presidente Lula, em 2 de fevereiro de 2023, com avisos colados em seus corpos que mostravam o desenho de uma mão com quatro dedos ao lado dos dizeres “Fora Lula” e “Fora Ladrão”. Portanto, isso comprova que Júlia Zanatta, ao segurar uma carabina enquanto vestia uma camiseta que sugeria Lula baleado, não somente incitou a execução do presidente (o chamado “apito de cachorro”), como, de fato, ela própria ameaçou Lula de morte por causa de suas medidas que revogaram os decretos assinados por Bolsonaro que favoreceram a indústria armamentista.


Reprodução/Instagram

Em 3 de maio, deputados da extrema-direita protocolaram um pedido de impeachment contra o presidente Lula. Eles alegaram uma omissão do governo durante os atos golpistas de 8 de janeiro. Zanatta falou em coletiva de imprensa.

Após pouco mais de um mês, em 6 de junho, um novo pedido de impeachment contra o presidente Lula foi protocolado na Câmara dos Deputados. Desta vez, o motivo foi a visita do presidente Nicolás Maduro ao país e a indicação de Cristiano Zanin ao STF. Júlia Zanatta disse ser uma das coautoras do pedido.

Ela compartilhou uma foto em suas redes daquele dia 2 de fevereiro quando seus colegas expuseram o desenho de uma mão com quatro dedos ao lado dos dizeres “Fora Lula” e “Fora Ladrão”. Eduardo Bolsonaro foi um dos que usou o cartaz com o desenho.


Reprodução/Instagram

Na semana seguinte, em 16 de junho, ela se encontrou com Jair Bolsonaro em Brasília. Os recentes pedidos de impeachment comprovam que Júlia Zanatta é uma aliada importante de Jair Bolsonaro em suas práticas conspiratórias permanentes contra o Estado Democrático de Direito.


Reprodução/Instagram

Em 9 de julho de 2023, o Proarmas realizou um evento em Brasília chamado “IV Encontro Proarmas pela Liberdade” que se repete na mesma data desde 2020. Eduardo Bolsonaro, ao lado de Marcos Pollon, fez uma bizarra comparação entre professores e traficantes de drogas.

É nesse contexto que o Shot Fair 2023 está agendado para ocorrer entre os próximos dias 2 e 5 de agosto em Joinville e mais uma vez é organizado pela empresa Planeventos.

Entre os expositores, constam empresas que eram listadas como parceiras do Proarmas, entre elas, Glock, Springfield Armory e Invictus. A empresa Camisetas Opressoras, que tem sede no mesmo endereço onde está registrada a empresa de cursos online de Eduardo Bolsonaro, também é uma das expositoras. A marca de veículos Toyota também está na lista através de uma concessionária chamada Toyoville. A Taurus novamente é uma das principais expositoras. Entre os palestrantes estão Bene Barbosa e a vice-governadora de Santa Catarina Marilisa Boehm.

Come and take it

Nenhum órgão de imprensa no Brasil conseguiu explicar o real significado da frase “Come and take it”. A camiseta foi elaborada por comerciantes ligados a clubes de tiro como uma ameaça de morte ao presidente Lula, usando a linguagem da extrema-direita dos Estados Unidos.


A frase “Come and take it” e a defesa extremista do armamento de civis também é compartilhada por grupos fascistas e terroristas nos Estados Unidos. A frase já foi visualizada em bandeiras ostentadas pelo grupo radical de supremacia branca Proud Boys, envolvido nos ataques golpistas de 6 de janeiro de 2021 em Washington.

O Proud Boys foi considerado um grupo terrorista em alguns países como Canadá, Austrália e Nova Zelândia. Qualquer pessoa associada a esse grupo terá o visto rejeitado caso tente ingressar nesses países. Existem relatos de grupos neonazistas terem se envolvido com o grupo Proud Boys, assim como existe a ostentação da bandeira “Come and take it” feita por neonazistas nos Estados Unidos.

O neonazista Antonio Foreman é um exemplo. Ostentava a bandeira “Come and take it” no quarto do hospital que frequentou quando foi tratado de ferimentos causados por facadas numa briga de rua.

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